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A primeira colecistectomia foi realizada em uma pequena cidade da Baviera por um médico de província. Foi um acontecimento absolutamente inusitado com aceitação lenta e progressiva do “establishment” cirúrgico alemão. Em 1987 Mouret em Lyon, França, executou a primeira colecistectomia laparoscópica. Foi novamente um acontecimento inusitado que, após alguma resistência inicial, tornou-se a mais importante inovação cirúrgica do fim do século passado.

O que é a vesícula biliar?

A vesícula ou bexiga biliar, localizada na face inferior do fígado, é uma espécie de bolsa lateral ao canal biliar. Tem parede muscular e a mucosa, sua camada mais interna, tem capacidade de absorver água. A bile, produzida pelo fígado é importante na digestão, especialmente das gorduras. Após secretada pelas células hepáticas ela é recolhida por canalículos progressivamente maiores que a levam para dois canais que se juntam na saída do fígado e a conduzem intermitentemente até o duodeno, que é a primeira porção do intestino delgado. Com esse canal biliar comum, chamado ducto hepático, comunica-se a vesícula biliar através de um canal sinuoso, chamado ducto cístico. Quando recebe esse canal de drenagem da vesícula biliar, o canal hepático comum muda de nome para colédoco. Este, ao entrar na parede do duodeno, tem um músculo circular, designado esfíncter de Oddi, que controla o seu esvaziamento para o intestino.

Como funciona a vesícula biliar?

O fígado produz bile constantemente. No intervalo das refeições, ela se acumula dentro dos canais biliares. Como o esfíncter de Oddi permanece fechado, aumenta progressivamente a pressão da bile dentro dos canais biliares, enchendo gradativamente também a vesícula biliar. Essa, no intervalo das refeições, absorve água e concentra a bile que está em seu interior. Logo após refeições, quando o alimento chega ao duodeno, ocorre um estimulo hormonal, abre-se o esfíncter de Oddi e simultaneamente contrai-se a vesícula biliar, devido a sua parede muscular, esguichando bile para o intestino. Esta tem papel relevante no processo digestivo, especialmente das gorduras.

A vesícula é fundamental para o organismo?

Não. Quando a vesícula biliar deixa de funcionar por doença ou é extraída cirurgicamente, os canais biliares intra e extra-hepáticos dilatam para conter mais bile. Após as refeições, o esfíncter de Oddi se abre e a bile, com pressão aumentada, escorre para o intestino. Sem a vesícula, embora o esguicho seja menor, a quantidade de bile é suficiente para desempenhar sua função digestiva.

Que doenças incidem sobre a vesícula biliar?

Litíase biliar

Cálculos ou pedras, se constituem na doença mais comum desse órgão. Costumam formar-se lentamente e aumentar progressivamente de tamanho e número. Há três tipos de cálculos. Uns constituídos basicamente por sais de cálcio, outros por cristais de colesterol e ainda outros por formação mista, com ambos os componentes. Os sintomas e complicações da litíase biliar independem da natureza desses cálculos. Um cálculo obstruindo o canal cístico provoca forte contração da parede muscular da vesícula biliar que se traduz sintomaticamente como cólica biliar sendo que a dor persiste enquanto o canal estiver obstruído. Essa dor, habitualmente se localiza no epigástrico, popularmente designado como “boca do estômago”. Quando o cálculo não se desloca, a bile represada irrita a parede da vesícula e pode propiciar o crescimento de bactérias, originando o quadro clínico de colecistite aguda.

Colecistite aguda

Costuma ser desencadeada pelo mecanismo acima descrito. Pode, no entanto, ocorrer sem a presença de cálculos; designa-se então colecistite aguda alitiásica(sem cálculos). Um surto de colecistite aguda pode regredir. No entanto, pode ocorrer em consequência da infecção ruptura da vesícula. Essa ruptura na maioria das vezes fica bloqueada no quadrante superior do abdômen. Entretanto, pode romper para dentro da cavidade abdominal, originando um quadro grave de peritonite difusa.

Câncer de vesícula biliar

Os cânceres do aparelho digestivo têm incidência baixa. Na quase totalidade das vezes estão relacionados à presença de cálculos biliares OU PÓLIPOS, presentes há anos.

Tratamento das doenças da vesícula biliar

Litíase (cálculos) vesicular

Há tratamento medicamentoso e tratamento cirúrgico da doença. Existem medicamentos que podem, em circunstâncias especiais, desfazer cálculos biliares. No entanto, o tratamento é prolongado, com freqüentes para-efeitos ao medicamento e com recidivas também freqüentes. A cirurgia é o tratamento de escolha. Indica-se cirurgia, na litíase não complicada, sempre que a mesma for sintomática, isto é, provoca cólicas biliares. Ocorrendo complicações, como colecistite aguda, a cirurgia impõe-se ou durante o surto agudo ou após acalmia do mesmo. Quando há cálculos assintomáticos, o comportamento muda.

Tende-se a sugerir cirurgia em paciente jovem com cálculos pequenos; com muitos anos a serem vividos, haverá tendência franca de os cálculos se manifestarem por cólicas ou, mais grave, por complicações.

Colecistite aguda

Na decisão do tratamento, há um fato importante a ser levado em consideração, 10% das colecistites agudas complicam. Nas primeiras décadas do século passado, quando era ainda importante o risco da cirurgia abdominal, havia franca tendência em “esfriar” o processo de colecistite aguda para realizar a cirurgia fora do surto agudo. Na segunda metade do século, tendeu-se francamente a realizar a cirurgia já no surto agudo, e quanto mais cedo melhor. A videolaparoscopia contribui muito para esta última conduta.

Câncer de vesícula biliar

É pouco freqüente e, na maior parte das vezes, é um achado transoperatório ou em laboratório ao exame anátomo-patológico da vesícula extraída cirurgicamente. Até anos recentes, foram raros os casos de sobrevida e restritos, praticamente, aos pacientes em que houve achado ocasional de cânceres pequenos. Com o grande progresso recente na cirurgia hepática, vem se obtendo resultados bem mais alentadores.

Cálculos de colédoco

Nenhum paciente deve ser submetido a colecistectomia sem prévia avaliação de eventual ocorrência de cálculos na via biliar principal. Hoje em dia, a ecografia bem realizada, com equipamento eficiente, dá segurança quanto à presença ou não de cálculos nessa estrutura.

A cirurgia em si

Colecistectomia é das operações mais realizadas e a mais freqüente das cirurgias abdominais. É segura, com mortalidade e índice de complicações muito baixas. Certamente muito menores do que os problemas decorrentes das complicações das doenças vesiculares. Era realizada por uma incisão ampla da parede do quadrante superior do abdômen. Havia dor pós-operatória significativa e permanência hospitalar de vários dias, além de complicações próprias da incisão operatória. Em 1987 Mouret, cirurgião francês de Lyon, realizou a primeira colecistectomia por laparoscopia. Em bem menos de 10 anos o novo método foi aceito em todo mundo, tornando-se, indiscutivelmente, a cirurgia de eleição para as doenças da vesícula biliar. É indicada tanto para litíase não complicada quanto para colecistite aguda.Cabe um alerta, todavia, para a cirurgia videolaparoscópica. Eventualmente  não é realizável por laparoscopia, impondo conversão para cirurgia convencional aberta. Converter uma laparoscopia para cirurgia aberta não é demérito mas prudência para prover solução segura para os problemas dos portadores de doença da vesícula biliar.

Por: ABC da Saúde.

Publicado em: 26/06/2016

Fonte: https://www.abcdasaude.com.br/cirurgia-geral/colecistectomia-cirurgia-da-vesicula-biliar